Dívida, Ucrânia, eleições de 2027: o poder deve prestar contas — Português

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A França e a Europa precisam fazer escolhas que comprometerão seu futuro por muito tempo. Nesse contexto, uma pergunta se impõe: como garantir a responsabilização de quem nos governa? Em matéria de finanças públicas, diplomacia e democracia, os cidadãos têm o direito de exigir explicações. Seu papel não pode se limitar a votar e, depois, suportar as consequências das decisões tomadas em seu nome.

Dívida: quase uma década no poder exige um balanço

E não apenas isso: os herdeiros de todos os que nos endividaram desde Giscard devem devolver esse dinheiro, porque seus antecessores nos trataram com desprezo. E agora o POVO é que deve pagar? NÃO!

No debate que acompanhei ontem à noite na LCI, questionava-se a responsabilidade política de Emmanuel Macron por cerca de 1,8 trilhão de euros de dívida, de um total aproximado de 3,5 trilhões, durante um período apresentado como nove anos e meio no poder. Relato aqui o número mencionado naquela discussão: seu cálculo e as datas exatas que abrange precisam ser esclarecidos.

O dado oficial do INSEE, por sua vez, está estabelecido: no primeiro trimestre de 2026, a dívida pública francesa atingia 3.536,1 bilhões de euros, ou 117,5% do produto interno bruto. Fonte: INSEE.

É preciso distinguir a dívida acumulada durante uma presidência da parcela diretamente atribuível às suas decisões. Mas essa distinção não pode isentar Emmanuel Macron, seus sucessivos governos e as maiorias que aprovaram seus orçamentos de responder por suas escolhas.

Quais despesas foram realizadas? Quais receitas foram reduzidas? Com quais objetivos, em benefício de quem e com quais resultados? Que parcela da dívida permitiu proteger a população ou preparar o futuro? Que parcela reflete programas ineficazes ou decisões sem financiamento adequado?

Nem toda despesa pública é desperdício. Escolas, hospitais, justiça, pesquisa e infraestrutura precisam de recursos. Uma política responsável deve, portanto, examinar tanto a utilidade das despesas quanto seu valor, e analisar as receitas com a mesma atenção.

As crises enfrentadas devem ser levadas em consideração. No entanto, não podem se tornar uma justificativa geral que encerre o debate. Governar por quase uma década implica assumir o balanço da própria gestão.

O que denuncio nos “príncipes da República” é essa maneira de reivindicar os sucessos enquanto se dilui a responsabilidade pelos fracassos. Devemos exigir avaliações independentes, acompanhamento público dos compromissos e correções quando os resultados não correspondem ao esperado. Quando irregularidades forem comprovadas, devem ter as consequências previstas em lei.

Ucrânia: relações pessoais não constituem uma estratégia

Emmanuel Macron recebeu Vladimir Putin em Versalhes em 29 de maio de 2017. O encontro posterior que reuniu Macron, Putin, Volodymyr Zelensky e Angela Merkel aconteceu em Paris em 9 de dezembro de 2019. São acontecimentos distintos. Fontes: Versalhes em 2017 e cúpula de Paris em 2019.

Dialogar com outros dirigentes faz parte do trabalho diplomático. Mas recepções prestigiosas, apertos de mão e demonstrações de proximidade devem ser julgados por seus resultados. O que permitiram alcançar? Quais compromissos foram respeitados? Quais lições foram extraídas dos fracassos?

Essa exigência vale tanto para Vladimir Putin quanto para Donald Trump. Uma relação pessoal exibida publicamente não garante que os interesses franceses e europeus sejam respeitados. Uma diplomacia sólida exige objetivos claros, meios confiáveis e capacidade de reação quando os compromissos são descumpridos.

Também é necessário avaliar com lucidez as capacidades russas. Apresentar a Rússia como militarmente “fora de combate” seria um erro. O SIPRI estima seus gastos militares em cerca de 190 bilhões de dólares em 2025, o terceiro maior valor do mundo. Esse número não demonstra a eficácia de todos os seus armamentos, mas impede que seu poder militar seja considerado insignificante. Fonte: SIPRI.

Combater a propaganda exige justamente esse rigor: examinar os fatos, reconhecer as incertezas e rejeitar narrativas que nos tranquilizam à custa da realidade.

A Europa deve poder influenciar seu futuro

Preocupa-me o risco de os europeus terem de aceitar decisões negociadas entre grandes potências sem poder influenciá-las de fato. Essa preocupação merece um debate sério; ela não precisa se apoiar na afirmação não comprovada de um projeto conjunto dos Estados Unidos e da Rússia para destruir a Europa.

Os interesses dos Estados Unidos, da Rússia e dos países europeus não são os mesmos. A Europa deve poder defender suas escolhas e dispor, para isso, de meios industriais, energéticos, econômicos e militares suficientes.

Isso exige respostas concretas. Quais produções queremos dominar? Quais dependências precisamos reduzir? Quais investimentos estamos dispostos a financiar? Como garantir que os cidadãos possam fiscalizar essas orientações?

A soberania se constrói por meio de decisões mantidas ao longo do tempo. Discursos não bastam: são necessários uma estratégia, recursos e uma responsabilidade claramente assumida perante a população.

Jornalistas: levar as perguntas até o fim

Os jornalistas têm um papel essencial. Esperamos que confrontem os responsáveis com suas declarações passadas, verifiquem seus números e examinem seus resultados com o mesmo rigor, independentemente de sua filiação política.

Os vínculos entre a imprensa, os interesses econômicos e o poder merecem ser questionados. A propriedade dos meios de comunicação, seu financiamento e os possíveis conflitos de interesse devem ser transparentes. Mas a crítica ganha força quando se apoia em fatos precisos e documentados, em vez de atribuir as mesmas intenções a toda uma profissão.

Quando se apresenta um número tão expressivo quanto 1,8 trilhão de euros, o público deve poder compreender seu cálculo. Quando escolhas orçamentárias são defendidas, seus custos e beneficiários devem ser examinados. Quando uma estratégia diplomática é apresentada como um sucesso, seus resultados devem ser demonstrados.

É essa exigência de acompanhamento, para além da declaração do dia, que permite aos cidadãos formar seu próprio julgamento.

2027: transformar a indignação em controle democrático

Francesas e franceses, nós criticamos, protestamos e, às vezes, nos exaltamos. Mas o que fazemos depois com essa indignação? Conheçam a DEMOSCIOCRACIA e decidam se a apoiam ou não.

Querer proteger a família, o padrão de vida e a tranquilidade é legítimo. Contudo, o medo da mudança também pode nos levar a perpetuar práticas cujas consequências denunciamos. Precisamos examinar essa contradição sem desprezar as preocupações de ninguém.

Com a aproximação de 2027, nenhum candidato deveria receber um cheque em branco. Exijamos programas com custos calculados, compromissos compreensíveis e mecanismos precisos de avaliação. Perguntemos como as propostas serão financiadas, quem se beneficiará delas e quais escolhas difíceis imporão.

Seria exagerado anunciar como uma certeza que os franceses estarão arruinados já no primeiro trimestre de 2027. Em contrapartida, devemos debater desde agora os riscos que pesam sobre nosso futuro e as formas de reduzi-los. A urgência democrática não precisa de uma data para a catástrofe para ser real.

Nossa responsabilidade como cidadãos continua entre as eleições. Ela passa pela informação, pela participação nos debates, pela fiscalização dos compromissos e pela disposição de exigir explicações, inclusive dos responsáveis que apoiamos.

A exigência que defendo é simples: toda pessoa investida de poder público deve explicar suas decisões, apresentar seus resultados e assumir suas consequências políticas.

Vamos dar conteúdo concreto a essa exigência: mais transparência, contrapesos efetivos ao poder e uma participação cidadã que realmente influencie as decisões.

VIVA A DEMOSCIOCRACIA: O PODER DO POVO POR MEIO DO CONHECIMENTO REAL E DA INTELIGÊNCIA, E NÃO APENAS DO SABER DOS LIVROS!

Vocês DEVEM ESCOLHER agora e tomar uma decisão sobre seu futuro.

É nesse espírito que faço este apelo: cidadãos, retomemos nosso lugar na vida pública. Façamos da nossa indignação uma força de proposta e de fiscalização. E não deixemos que os políticos e sua administração nos obriguem a fazer tudo enquanto não respondem por nada: NEM ELES NEM SUA ADMINISTRAÇÃO.

VIVA A DEMOSCIOCRACIA!

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